Texto publicado em: Terraço Econômico

Meu nome é Pedro Pablo Rojas, nasci em Caracas, Venezuela, em meados dos anos 70. Para quem gosta de rótulos, sou da geração X — última que jogou bola nas ruas e depois se familiarizou com a tecnologia. Cresci num ambiente de classe média, cercado por muitas vantagens… vivi num país rico!

Grande parte da minha educação se deu no sistema público. Sempre houveram diferenças em relação ao sistema privado, mas, na época, não eram tão significativas. Meus avós e pais trabalharam duro e receberam uma recompensa justa, para que pudessem deixar um caminho para a prosperidade. Estudei engenharia, mas depois descobri minha paixão pelo estudo da ciência social que é a economia: aquela que busca o maior bem-estar do indivíduo, sabendo que os recursos são escassos. Enquanto isso, meu país continuou empreendendo grandes planos de desenvolvimento… aqueles que nunca aconteceram e agora estão sendo sequestrados.

Trabalhei no setor bancário, então a veia do empreendimento acordou e decidiu seguir esse caminho. Apaixonei-me por uma mulher extraordinária, com uma carreira profissional ascendente e que teve que deixar o país, então chegamos à Colômbia. Não tivemos a oportunidade de conhecer essa outra sociedade, pouco tempo depois o destino nos trouxe ao Brasil.

A Venezuela na qual tive a imensa sorte de nascer e crescer era uma terra abençoada pela graça de Deus, embora isso soe clichê. Localização geoestratégica indiscutível, riquezas minerais, solos extremamente férteis, e um povo quente, amigável, e gentil.

Uma terra onde havia segurança, onde haviam garantias de investimento e vida. A democracia havia estabelecido as bases e instituições que dão origem ao governo e a ordem civil tinha amplo reconhecimento e credibilidade. Aquele país tinha o orgulho de ser o maior exportador de petróleo das Américas. Sob todas essas condições, ela foi considerada a Suíça da América Latina, nunca faltaram investimentos estrangeiros e as empresas locais eram prósperas.

Infelizmente, a questão política, a luta de classes e vingança começou a corroer e contaminar tudo. A demagogia extrema e populismo iniciaram uma trajetória de declínio, que começou com as instituições democráticas, o corpo militar e a sociedade civil. Nada disso foi uma surpresa para alguns, eles sabiam perfeitamente o que aconteceria, como se fossem cartomantes. Ninguém escutou essas pessoas, foram ridicularizados ou fizeram com que os avisos parecessem exageros. Assim foram os últimos 20 anos desse espaço territorial, é difícil chamá-lo de nação, uma vez que foi desmantelado até restarem somente ruínas.

A situação atual no meu país é sem precedentes na história política, social e econômica da América Latina e, provavelmente, no mundo. Trata-se da destruição absoluta de qualquer presença de institucionalidade, democracia e pluralismo.

A Venezuela é um narco-estado, onde a ambição de poder e a sede de vingança de alguns sequestraram o presente e o futuro de milhões de pessoas. Isso gerou a aniquilação dos poderes públicos, do estado de direito e das garantias de acesso à saúde, educação, serviços básicos, moradia, entre outros.

É improvável que as pessoas possam entender o drama que venezuelanos vivem apenas por acompanhando as notícias, lendo um jornal ou assistindo um documentário. Tudo vai além, pois, o fenômeno migratório também dividiu famílias e afetos, roubou tempo e espaço que são insubstituíveis.

A economia venezuelana atingiu níveis de ineficiência inimagináveis. Seu aparato produtivo foi reduzido a níveis dos anos 60, suas indústrias de base foram desmanteladas, sua força de trabalho foi desmoralizada e forçada a emigrar. A indústria do petróleo, que oferecia garantias de estabilidade e crescimento acelerado, foi saqueada e reduzida a um nível ridículo, para dizer o mínimo. É impensável ter existido um lugar onde todos os fatores de crescimento econômico (terra, trabalho e capital) tenham sido pulverizados, desviados e saqueados. Só nos resta uma memória, uma promessa não cumprida.

A Venezuela deixou de ser um país exportador de matérias-primas, serviços e produtos acabados, para um país dependente dos excedentes de certas nações, principalmente subprodutos que não querem consumir. Não há informações sobre a quantidade de dinheiro que foi roubada de seus cofres, as perdas são incalculáveis. Além disso, os níveis de endividamento e compromissos futuros de pagamento de petróleo comprometem a produção e disposição desses recursos. Não é possível alocá-los às reais necessidades do povo venezuelano.

Hoje há uma economia de guerra, os preços são dolarizados e a inflação aumenta diariamente, atingindo valores de 8 dígitos em termos percentuais. A única maneira possível de sair de tal situação seria o resgate por fundos internacionais, empréstimos e uma administração transparente que seja apropriada para as oportunidades que são abertas uma vez que a mudança de governo aconteça.

Não só o povo brasileiro, acho que é algo generalizado nos países da América Latina. Essa tendência em ignorar ou minimizar más experiências vizinhas. Embora seja necessário respeitar a autonomia das pessoas, afinal, compartilhamos um território e existem vários órgãos e agências que podem responder aos pedidos de ajuda. Não é necessário esperar até o último momento para evitar situações de maior risco.

Infelizmente, nossos países sempre flertaram com as ideias revolucionárias da política de esquerda e suas ideologias fracassadas de igualdade. Nenhuma recompensa é obtida sem esforço, não é possível melhorar a condição de um setor diminuindo a condição de outro. O populismo e a pouca educação política e social de nossos países desencadearam um grande atraso e sofrimento em diferentes países da região.

Não tenho dúvidas, eventualmente, e a curto prazo, ocorrerá uma mudança de governo. Isso trará consigo o início de um ciclo de crescimento sustentado, necessário para levar a Venezuela ao caminho da prosperidade. Existem opiniões diferentes, os cenários mais otimistas preveem uma recuperação no curto prazo. Pessoalmente, considero ser um trabalho que exigirá uma maior quantidade de esforço e recursos. Nós estamos falando sobre a reconstrução de uma nação, começando pela confiança nas instituições, suas dependências, forças armadas, a formação de uma nova classe trabalhadora e a progressiva atração de capital e mão de obra qualificada.

Estimo que todas essas etapas levam entre 15 e 20 anos, tamanho o recuo em todas as dimensões. A Venezuela deve ser um exemplo, uma memória permanente do que pode acontecer com um país que tenta se aventurar e negligenciar a política, isolando seus problemas e deixando de lado os valores que constituem cada nação. Hoje a maioria dos venezuelanos se esforça para lavar o próprio rosto e a honra daqueles que têm manchado o nome do país. Estamos espalhados em todos os cantos do nosso continente, sendo porta-vozes dessa mensagem para que nenhum tenha que passar pelos mesmos problemas que nós.

Minha mensagem para essas pessoas é que devem estar envolvidas, com boas referências, que investiguem e, acima de tudo, participem ativamente da vida política. Na grande maioria das vezes, as pessoas, por apatia e ignorância, desconhecem a influência imperativa que terão as decisões dos representantes, em todos os níveis da sociedade. Refiro-me aos prefeitos, aos congressistas, às autoridades e, claro, à figura presidencial, que articula a gestão dos poderes.

Tudo o que é discutido nestes casos terá impacto sobre a sua vida. Você não pode permitir que uma minoria tenha nas próprias mãos o seu destino. A sua qualidade de vida está em jogo quando você deixa de escolher, deixa de votar. Temos a obrigação de agir e expressar nossas opiniões enquanto cidadãos. O poder está lá, só é preciso que alguns queiram tirar proveito de quem precisa para que isso aconteça. Não permita que isso continue acontecendo.

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

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