Texto publicado em: capellari.org

Você acha que as situações do seu cotidiano são exclusivas à sua vida? É provável que não, questão de estatística. Bilhões de pessoas, milhares de anos… Leia aí!

Por sorte, (seja lá qual for a sua definição de sorte) nós temos à nossa disposição algumas ferramentas como, por exemplo, a História ou, até mesmo, as histórias. Experiências capturadas e encapsuladas, materializadas na forma de livros. Seria essa a despertadora pílula vermelha de Morpheus? Essa pílula não é consumida por via oral, e sim, por via mental, consome tempo, atenção, memória, felicidade.

Cito as palavras de um cachorro louco, abre aspas:

“Graças à minha leitura, eu nunca fui pego desprevenido por situação alguma, nunca me faltou conhecimento sobre como lidar com um problema (com ou sem sucesso) até aqui. Ela não me dá todas as respostas, mas ilumina o que é, na maioria das vezes, um caminho escuro adiante.”

Enquanto ferramentas são classes, armas são suas instâncias. Alguém já travou as mesmas batalhas que você hoje trava. Um país já guerreou contra o país que você hoje guerreia contra. Faltou a Napoleão ler os registros suecos antes de tentar invadir o território russo? Faltou a Hitler ler os registros napoleônicos? Você não precisa ser um conquistador megalomaníaco para forjar alianças com os livros ou conquistar seus medos mais íntimos. Leia por prazer, busque sabedoria, pois, ler é o investimento que paga os mais altos dividendos. Conforme você constrói seu portfólio de leituras, seu conhecimento renderá com o passar do tempo. Esse rendimento não será meramente simples, será recursivo (computacionalmente falando), será composto (economicamente falando). Você honrará seu processo decisório não apenas com base em sua própria experiência, ao absorver a experiência de terceiros você terá inúmeras oportunidades de adquirir sabedoria. Um bom professor uma vez me disse (na verdade, ele disse pra sala toda mas esse não é o cerne da questão), “sábio é aquele que aprende com os erros dos outros”.

Deixando a História de lado, vamos falar das histórias agora. O limite para os ensinamentos da literatura é determinado por um único fator, criatividade. É através dela que podemos viver outras vidas, em outros tempos, sermos outras espécies ou, diriam alguns, dizer verdades tão duras que não podem ser apresentadas fora do campo da Arte.

A literatura permite a criação de conexões emocionais, de Brás Cubas a Macunaíma, com os personagens. Umberto Eco aponta que “muitos personagens de ficção ‘vivem’ fora da partitura que lhes deu existência, e se mudam para uma zona do universo que achamos muito difícil delimitar.” A extensão do impacto do martelo literário vai muito além do horizonte. Sem a poesia lírica do trovadorismo, origem da Língua Portuguesa, você não estaria lendo este texto neste exato momento. Sem (o inferno de) Dante, não haveria Italiano. Que rumo teria tomado a civilização ocidental sem a tradução da bíblia por Martinho Lutero? Mesmo que você não tenha acesso às grandes obras, as grandes obras têm acesso ao seu cotidiano, no seu pensamento e na sua fala.

O ato da leitura permite também a sinergia entre leitor e autor. Sobre essa relação, Sartre diria que “a leitura é um pacto de generosidade entre o autor e o leitor; cada um confia no outro, conta com o outro, exige do outro tanto quanto exige de si mesmo. Essa confiança já é, em si mesma, generosidade: ninguém pode obrigar o autor a crer que o leitor fará uso de sua liberdade; ninguém pode obrigar o leitor a crer que o autor fez uso da sua. É uma decisão livre que cada um deles toma independentemente.”

Liberdade, direito garantido pela nossa constituição e ponto de discussão recorrente para aqueles que vivem em uma democracia (?), o próprio Sartre oferece interessantes comentários sobre a relação entre a liberdade de escrita e a liberdade do indivíduo. Não se escreve para escravos, a arte da prosa está aprisionada ao único regime em que ela tem significado, democracia. A ameaça à democracia implica diretamente na ameaça à arte da prosa.

Não há como falar de liberdade sem pensar em fazer escolhas, na arte do possível, mas as histórias nos oferecem uma riqueza de possibilidades. Na verdade, escasso, é o tempo.

“Vejo, porém, que, todos aqueles que ensinam, praticam o que ensinam a fim de edificar pelo exemplo os que aprendem, da mesma forma que os estimulam pela palavra.” (Xenofonte, aluno de Sócrates).

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

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