Sérvia: uma breve discussão geopolítica

A região dos Bálcãs possui um longo histórico de conflitos militares e de, inclusive, rupturas de Estados, cujo plano de fundo envolve uma profunda diversidade étnica (vide mapa 1). Considerando tal contexto, pode-se delimitar o objeto de estudo deste texto às questões da geografia política e história, tangenciando as relações geopolíticas da Sérvia.

Mapa 1 — Diversidade étnica nos Bálcãs. Via Le Monde diplomatique

O caso sérvio pode ser analisado através da perspectiva do conceito de território enquanto processo geopolítico ligado à constituição e evolução do Estado sérvio. No âmbito da territorialidade, podemos observar a dualidade urbano-rural como um ponto central para a busca de uma maior compreensão sobre o caso. Esse âmbito tem por característica uma territorialização político-funcional (Haesbaert, p. 21), que admite certo grau de pluralidade cultural, mas não de poderes, criando-se a oportunidade para a investigação das contradições acentuadas pela recente disputa presidencial sérvia, vencida por Aleksandar Vučić.

As escalas geográficas de maior ênfase durante o desenvolvimento do tema serão a escala nacional e internacional, pois, servirão como ferramentas úteis na complementação da abordagem pretendida.

Aspectos históricos e geográficos¹

Primeiramente, é necessário notar que a soberania do estado sérvio foi muito mais regra que exceção ao longo de sua história. Portanto, o estado sérvio vem permanentemente tentando emparelhar-se aos demais estados-nações da Europa na escala internacional.

Ao longo desse processo, considerando a escala nacional, ocorreram diversas tentativas de recuperação da sua independência política sérvia, bem como de anexações de territórios vizinhos, já que originalmente a Sérvia não tem litoral. O povo sérvio viveu sob diferentes regimes de governo em diferentes épocas, indo da monarquia ao socialismo. Sua entrada na era industrial foi tardia, e assim como demais países de caráter periférico, só seguiu em direção à construção de uma sociedade urbana, secular e industrial após os eventos da Segunda Guerra Mundial.

Em termos geográficos, a Sérvia do século XXI pode ser dividia em quatro regiões distintas. A área ao redor da capital Belgrado, as planícies do norte, a região central cuja principal característica é a presença de densas florestas, além da região de Kosovo localizada ao sul. O clima em seu território é predominantemente continental, com verões quentes e invernos frios, sendo que a maior parte de suas regiões têm incidência de chuva.

Ao longo dos séculos, Belgrado foi uma relevante posição estratégica por estar na confluência dos rios Danúbio e Sava e, em determinada época, entre os impérios Otomano e Austro-húngaro (Vide mapa 2, 3 e 4).

Mapa 2 — Sérvia, Império Otomano e Império Austro-Húngaro. Via Le Monde diplomatique
Mapa 3 — Sérvia, Império Otomano e Império Austro-Húngaro. Via Le Monde diplomatique
Mapa 4 — Sérvia, Império Otomano e Império Austro-Húngaro. Via Le Monde diplomatique

No século XXI, Belgrado é considerada uma das grandes cidades europeias, com uma população diversa, uma base industrial de tamanho considerável, os prédios que compõem o aparelho estatal da república e grandes subúrbios. Nos subúrbios e em cidades quase que industriais como, por exemplo, Smederevo, pode-se encontrar fábricas de aço, máquinas, componentes elétricos e automotivos. Essa região carrega uma marcante cultura de origem turca, herdada das influências do Império Turco-Otomano. As áreas de planície do norte são conhecidas como Vojvodina e fazem fronteiras com os territórios da Hungria, Eslováquia e Romênia. O rio Danúbio, que liga a Alemanha e a Áustria aos Bálcãs e ao Mar Negro passa por essa região. O solo negro encontrado ali é utilizado para o cultivo de trigo e beterraba, além de explorado para a extração de gás natural e petróleo. A região central conhecida como Sumadija é um dos principais focos das atividades agropecuárias desempenhadas pelo país. Já a região sul, Kosovo, tem por principal característica a riqueza mineral e é alvo de disputas geopolíticas entre a Albânia, a Sérvia e o movimento em prol da independência de Kosovo. Além da riqueza natural, outro aspecto valorizado na região são suas características geográficas, que a torna uma fronteira de fácil manutenção e cuja perda implicaria em prejuízos geopolíticos consideráveis.

2017: Eleições, Sérvia, União Europeia e as contradições de escala

As eleições sérvias para a presidência que acabaram por eleger Aleksandar Vučić, assim como as demais eleições do passado recente no mundo ocidental, foram marcadas pelo questionamento à falta de substância da classe política. A discussão sobre políticas públicas foi preterida em função de discursos carregados por uma ideologia autoritária e nacionalista. Tal discurso ideológico é apontado como um dos fatores que, com as dimensões culturais do povo sérvio, resulta no populismo político que busca concentrar poderes e exercer domínio pela via político-institucional. As origens dessa conjuntura política são sujeitas à análise geopolítica.

Vučić foi eleito novo presidente da Sérvia no primeiro turno, com 55,1% dos votos, e a notícia de sua eleição desencadeou protestos nas cidades de Belgrado e Novi Sad. A eclosão de protestos nessas duas cidades em específico sugere a hipótese da agravação de uma ruptura urbano-rural. Os candidatos de oposição tiveram campanhas de maior expressão justamente nos centros urbanos, o segundo colocado com 16,27% dos votos, Saša Janković, era apontado como o candidato de escolha desses centros. Já nas pequenas cidades e regiões rurais a predominância era de Vučić. Harvey (p. 158–159) oferece uma possível descrição para esse fenômeno, quando se observa o urbano e o rural enquanto entidade:

O grau de coesão social e relações sociais entre indivíduos e grupos dentro dessas associações territoriais varia muito. Vínculos afetivos — lealdade local, regional ou nacional — podem ser fortes (como no caso do nacionalismo intenso) ou fracos.

A intensidade dessas relações pode refletir uma comunhão na religião, etnia, língua ou apenas história e tradição, dando ao governo estadual ou regional um caráter distintivo bem definido em relação aos interesses comuns. O caráter de entidade dessas associações territoriais frequentemente leva-as a competir umas com as outras. Essa concorrência muitas vezes fortalece a lealdade afetiva e as semelhanças de propósitos entre os que vivem no território, mas também acentua as exclusões e diferenças.

O principal intuito dos protestos era manifestar oposição à “ditadura Vučić”. O recém-eleito presidente possui um longo histórico no cenário político sérvio, fato que frequentemente atrai comparações ao presidente russo Vladimir Putin, já que ao longo dos anos ocupou as posições de ministro da informação (1998–2000), ministro da defesa (2012–2013), vice-primeiro-ministro (2012–2014) e, por último, primeiro-ministro (2014–2017). As eleições de 2017 sofreram inúmeras acusações de fraude e o agora presidente é tido como um líder autoritário, nacionalista e capaz de usar métodos repressivos (p. ex. censura, campanhas de desinformação, etc.) para manter um pulso firme no controle do país. O aprofundamento do caráter autocrático da política sérvia vai de encontro à pretensão de entrada da Sérvia na União Europeia (UE). A promoção de valores prezados pela UE como a segurança jurídica e liberdade de imprensa aparente ser antagônica às tendências em questão. Entretanto, Vučić é visto de forma positiva pela instituição em razão de sua disposição em seguir as demandas feitas pelos seus oficiais. Essa contradição de escalas pode ser compreendida como um dos fatores preponderantes para a manutenção da estabilidade na região dos Bálcãs. Estabilidade essa que foi estabelecida como uma das diretrizes originárias da geopolítica por Mackinder (p. 99):

O equilíbrio real do poder político em um dado momento é, por certo, o produto de condições geógrafas tanto econômicas como estratégicas, por um lado, e do número relativo, virilidade, equipamento e organização dos povos competidores, por outro. Na mesma proporção em que se tenham estimado com precisão essas quantidades, teremos possibilidade de ajustar diferenças sem o bruto recurso às armas. E as quantidades geográficas nesse cálculo são mais mensuráveis e mais próximas a serem constantes que as humanas. Em consequência, podemos esperar que nossa fórmula se aplique igualmente à história e à política atual.

Enquanto os conflitos de escala internacional são mantidos sob controle, ainda que com a condução de um governo autoritário, na escala nacional esse mesmo governo acaba recebendo um aval para conduzir sua própria vertente de poder. Pode-se dizer que há uma ampliação das questões de escala descritas por Harvey e destacadas por Smith (p. 143) onde os ricos expressam sua liberdade através da capacidade de superar o espaço enquanto os pobres são encarcerados por ele. Configurando-se uma transação entre poder de núcleo duro e poder de núcleo mole onde os interesses do mercado financeiro, avesso à instabilidade geopolítica causada pelo bruto recurso às armas e que atua na escala internacional, influenciam diretamente na escala nacional através das relações Sérvia-União Europeia.

Em suma, procurou-se através deste texto realizar uma breve introdução da geopolítica sérvia. Apresentou-se ainda três propostas de conceitos, contradição de escalas, poder de núcleo duro e poder de núcleo mole no contexto das eleições nacionais de 2017. Pretende-se explorar formalmente esses conceitos em trabalhos futuros, considerando-os frente ao arcabouço teórico da geopolítica enquanto campo do conhecimento científico e seus objetos de estudo.

Bibliografia

Livros

¹Cox, John K. The History of Serbia.

Harvey, David. O Enigma do Capital.

Artigos

Haesbaert, Rogério. Território e Multiterritorialidade: Um Debate.

Mackinder, Harold. O Pivô Geográfico da História.

Smith, Neil. Geografía, diferencia e las políticas de escala.

Notícias e mídia

Balkanist. Op-Ed: Europe Should Brace Itself, There’s a New Autocracy on the Rise in Serbia

Balkanist. Serbian Elections are a Personality Show — But We Can Take it Off the Air

Balkanist. Serbia Erupts in Protests “Against the Dictatorship” of Aleksandar Vucic

Balkanist. “The System Lies to You”: Fear and Fragmentation in Post-Election Serbia

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