Ortodoxos e Heterodoxos no Brasil

Texto publicado em: Terraço Econômico

O texto a seguir é uma transcrição — levemente editada — de parte do evento de lançamento do livro ‘O Valor das Ideias’. O trecho em questão corresponde à apresentação de Marcos Lisboa, com início aos 29min de vídeo.

“Como é que a gente enfrenta divergências? Meu palpite é esse, minha opinião é aquela, eu acho aquilo, foi assim. Esse é o ponto que separa — são os métodos — que separa heterodoxos e ortodoxos no Brasil.

A tradição heterodoxa é uma tradição muito peculiar. Na verdade, é uma tradição mais antiga, ela vem das velhas tradições interpretativas do conhecimento, o que era típico do Brasil do começo do século XX. Você procura ter uma estrutura conceitual a priori e, com base nisso, propor alguma interpretação que seja relativamente consistente com os fatos conhecidos. Essa, por exemplo, é a tradição que está no Raízes do Brasil [livro de Sérgio Buarque de Holanda], no Casa-Grande [& Senzala, de Gilberto Freyre], no Donos do Poder [de Raimundo Faoro], que está na tradição econômica de meados do século pra trás*.

É curioso que a tradição heterodoxa do Brasil se divide em várias seitas, parecem evangélicos. Tem várias do Marx, tem o Marx do preço de produção, tem o Marx da ontologia. Tem os muito Keynes, tem pós-keynesiano, tem neokeynesiano. Em geral você se filia a alguma visão conceitual e com base nessas ideias — tem sempre uma discussão sobre o que o autor quis realmente dizer — você constrói uma narrativa pra dar conta dos fatos estilizados do Brasil com pouco mais, pouco menos dados.

O que é ortodoxia, que se chama no Brasil, a teoria econômica lá fora. Isso é economia lá fora. Esse debate, não tem lá fora. É uma outra abordagem desde os anos 50. Teoria não tem nada a ver com o mundo. Teoria são proposições lógicas, são argumentos formais da lógica, pra estabelecer relações de causalidade nas diversas circunstâncias. Elas não tem qualquer conteúdo empírico, nada dizem sobre o mundo, dizem sobre relações formais. Em dadas circunstâncias abstratas, tais resultados são válidos.

Talvez o maior resultado da ciência social do século XX, o teorema da impossibilidade de Arrow: nessas condições, não existe um critério de justiça social que satisfaça critérios mínimos como eficiência de Pareto, consistência, completude e não existência de um ditador. Não existe, é um fato lógico.

Qualquer trajetória de preços e quantidades é compatível com uma economia de mercado, com mercados completos e agentes racionais. Isso é o contrário da lenda meio atrapalhada de quem comenta a ortodoxia sem ler. Equilíbrio neoclássico, racional, com mercados completos, não é um mundo estável. Pode ser uma trajetória caótica, compatível com o modelo de equilíbrio geral com mercados completos, como a gente sabe há 40 anos.

Esses são resultados formais, eles nada falam sobre o mundo. Falam sobre lógica, sobre proposições. É uma linguagem formal, onde você tem jogos cooperativos, não cooperativos, equilíbrios competitivos, não competitivos, modelos estáticos, modelos dinâmicos.

O que é análise aplicada em economia? Essa é a outra metade da revolução que começa nos anos 50. Escolhe-se um modelo, uma versão específica de um daqueles resultados formais, com implicações precisas. Isso é parte da regra do jogo, o que você vai afirmar precisa ser preciso. Nessas condições, tal fenômeno tem que ser observado. Estratégia de identificação empírica, é a grande econometria que se desenvolve a partir dos anos 50. Qual é a sua estratégia de identificação empírica? Como você pode rejeitar, ou não, este modelo? Como você pode saber que tem causalidade aqui envolvida?

Tem modelos com as mais diversas implicações e você testa. Esse modelo vale ou não vale. Não tem uma visão liberal do mundo, não tem uma tese de que mercado funciona ou não funciona. Nada disso faz parte do jogo. Em alguns modelos os mercados são eficientes. Em outros, não. Em alguns as trajetórias são estáveis. Em outros, não. Tem modelos com cooperação, comportamento racional, com não racionalidade. Tem pra todos os gostos.

Algumas vezes a evidência permite corroborar alguns resultados, como é o belíssimo debate de Heckman e Angrist, nos anos 2000, sobre a importância da primeira infância. Qual é a fase da educação mais importante para desenvolvimento de adultos saudáveis? Será que é depois dos 7 anos? É o ensino médio? O ensino fundamental? O Heckman defendia que era do 0 aos 7 anos e hoje a evidência é avassaladora sobre como essa fase é a mais importante na formação de um adulto saudável.

Outros, não. Por exemplo, em que momentos o ajuste fiscal funciona ou não funciona? Isso não é um palpite. Eu acho que ajuste fiscal é bom, é ruim. Não é bom e ruim. Quimioterapia pode ajudar você a se curar de uma doença ou pode matar você. A questão é: em que condições? Em que circunstâncias a evidência mostra em que casos o ajuste fiscal pode ser saudável ou não.

Curiosamente, os ortodoxos são muito diferentes do que você imagina quando ouve a palavra ortodoxia. Primeiro, discurso de autoridade não vale. Ah, o Krugman falou. E daí? O Keynes disse. Sim? Se isso está na teoria, é a verdade semântica da proposição. A proposição está correta ou não. No caso aplicado, é a robustez dos argumentos. A sua estratégia de identificação passou no teste ou não?
Mais ainda, a ortodoxia valoriza a inovação. Essa é a regra do jogo. Se você publica mais do mesmo, está fora. Não vai ganhar tenure, não publica nenhum artigo. Por isso as inovações. O que se chama de ortodoxia está se renovando permanentemente. É informação incompleta, racionalidade limitada, economia comportamental, bolhas, inviabilidade da razão social e por aí vai.

Aliás, é assim que você ganha emprego nos Estados Unidos: mostrando que os velhos estavam errados, que tem uma maneira diferente. Em geral, você exagera um pouquinho quando está falando de revolução. Estou revolucionando a teoria econômica, a garotada que acabou o PhD gosta de fazer isso. Ajuda a arrumar emprego.

Veja, uma é narrativa interpretativa. A outra é testar, empiricamente, proposições derivadas de algum modelo específico. O diálogo fica difícil, um não entende o outro. O heterodoxo busca qual é a visão de mundo do ortodoxo. Você acha que o mercado funciona sempre, você é um liberal. Essas divergências levam, por exemplo, à política fiscal de 2015.

Os heterodoxos contam uma historinha em que um país lá, meio desacelerando, mas tudo bem. A partir de janeiro de 2015, cruza o zero e o Joaquim toma posse. É uma narrativa. Você olha, a taxa de crescimento vinha caindo, em janeiro de 2015 ela cruza o zero. O Joaquim tomou posse no dia primeiro, é a política fiscal.

No caso ortodoxo, em primeiro lugar, quanto tempo demora pra política fiscal ter impacto? Tem estimativa sobre isso. 9 meses? 1 ano? Qual foi o tamanho do impacto do ajuste fiscal que o Joaquim fez? Não foi no primeiro semestre, foi no segundo e foi desse tamanho. Qual é a estimativa do multiplicador do impacto fiscal? 1.5? 1.3? 1.9, no caso do Brasil, usando séries longas com VAR, com estimativa. Pois é, pro Joaquim ter tido o impacto que se diz que ele teve é 4 de impacto fiscal, instantâneo.

Outra diferença é que a tradição heterodoxa está sempre enfatizando o dilema, o contraste. É sempre Antônio contra João. Os ortodoxos, não. A gente não está preocupado com isso. Esse é um tema da política, a gente está preocupado com onde a economia funciona mal. Onde a sociedade como um todo perde. Onde há ocorrência de ineficiência de Pareto.

Um exemplo de disfunção, taxa de desemprego e pedidos de seguro desemprego. Estados Unidos é normal, aumenta o desemprego e aumenta o pedido de seguro desemprego. O Brasil, que engraçado, é de cabeça para baixo: o pedido de seguro desemprego aumenta quando o desemprego cai. Não é uma questão de reforma trabalhista, de você estar contra o trabalhador ou da empresa. Não é isso. É que tem algo disfuncional aqui. Se o pedido de seguro desemprego aumenta quando o desemprego cai, tem algo de errado funcionando nesse mercado. Algo está estranho aqui.

Outra coisa, botar dois números juntos não quer dizer que um causou o outro. Será que o Lula foi o responsável pela queda da desigualdade? Tem que testar a causalidade, não basta dizer que foi. Ela caiu na Colômbia, no Chile, no Peru. Ela caiu em todos os países emergentes. Ué? Será que tem algo que é fora do Brasil? Como é que eu testo a causalidade?

Nos anos 50 tinha um debate na América Latina e no mundo subdesenvolvido: as razões do atraso. A proposta na época era, uma razão do atraso é a agricultura improdutiva. A produtividade marginal do trabalhador no campo é zero. Pro país ficar rico você tem que tirar as pessoas do campo e levá-las pra cidade. Na cidade você põe indústria, tem maior produtividade, o país enriquece.

É uma bela tese, se for verdade. Como é que eu testo se é verdade ou não é verdade? Imagine se eu faço uma política de imigração e está errada a minha tese. Schultz teve uma ideia, Theodore Schultz. Ele descobriu que na Índia, começo do século XX, teve uma crise de gripe espanhola. A Índia era o maior candidato para que essa tese fosse verdadeira, o grande exemplo que se dava nos debates.

Aquela gripe matou, em média, 6% dos jovens indianos. Ele comparou as médias de produção agrícola antes da gripe e depois da gripe. Se a tese estivesse certa, teria reduzido a população e a produção teria ficado estável. A produtividade marginal era zero. Não teria nenhum impacto. Descobriu-se que sim. A produção caiu exatamente na mesma proporção do número de pessoas. Depois, outros estudos empíricos documentaram que a produtividade estava longe de ser zero. Pelo contrário, nada disso era verdade.

Todo o esforço do método é separar e esse diálogo do método tem que ser avançado, até pra que a conversa se torne produtiva. Vamos combinar, são anos e anos de debate entre ortodoxos e heterodoxos no Brasil e não tem dado muito certo. Não é?”

*Creio que foi um lapso, originalmente ele diz “meados do século pra frente” que, na verdade, é o período de surgimento da tradição ortodoxa.

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