Texto publicado em: Terraço Econômico

Aliás, essa não é a única alternativa para colher os rendimentos da controvérsia criada por Lara Resende. Aproveitaria a oportunidade publicitária, vender algum livro sobre as três letras malditas — — não me parece mau negócio. Ainda mais se o consumidor em potencial é algum heterodoxo desavisado. Apenas um devaneio, permitam-me retomar o foco.

As ideias de Lara Resende, quando discutidas por alguns, sofrem uma espécie de “marxização”. Isso é, muito se fala sobre o que ele quis dizer e pouco se fala sobre o que escreveu de fato. Contudo, convenhamos que o economista brasileiro se expressa com muitíssimo mais clareza que o pensador alemão.

Num segundo momento, essa tese (juntamente às teses adjacentes) se traduz numa proposta de condução da política macroeconômica, ainda segundo Pessôa: “Manter a taxa de juros baixa — de preferência abaixo da taxa de crescimento da economia — e empregar a política fiscal para regular a demanda agregada.”

Contudo, aplicando-se essa política macroeconômica num cenário hipotético (carinhosamente apelidado de “Lula dourado”), onde a economia brasileira cresce, em termos reais, a 4% e sob pressão inflacionária que implica juros reais superiores a 6%, o que acontece? Dadas as condições do “Lula dourado”, o banco central coloca a taxa de juros real abaixo de 4% e o ministro da Fazenda faz a política fiscal condizente, que é: ajuste fiscal, assim como defendia a equipe de Palocci.

O terceiro ponto do trajeto é a história do pensamento econômico brasileiro. Revisitando o debate entre Eugênio Gudin e Roberto Simonsen, o liberalismo ilustrado do primeiro foi derrotado pelo nacional-desenvolvimentismo do segundo. Foi assim que o protagonismo estatal na economia conquistou os corações e as mentes dos políticos e da sociedade na década de 40, recorda Lara Resende em Juros, Moeda e Ortodoxia.

A derrota do liberalismo ilustrado em 40, propõe o autor, foi determinada principalmente pelo dogmatismo monetário. A política monetária contracionista, aplicada com péssimo político e quiçá nem com o melhor dos diagnósticos econômicos, afastou os liberais ortodoxos do poder por décadas. Hoje, aponta Lara Resende, o dogmatismo fiscal seria o suicídio da tecnocracia liberal que está no governo .

O grupo ignorou as recomendações da ortodoxia keynesiana e adotou a promoção da competição como facilitadora da prosperidade naquela sociedade. Dessa forma, caberia ao Estado assegurar a competição sadia, com a devida inteligência para retirar a si próprio do jogo. Trata-se de ditar as regras e não de jogar.

Os valores dessa doutrina se manifestam naquilo que Lara Resende propõe para a economia brasileira: estímulo aos investimentos e promoção da iniciativa privada, almejando o aumento da produtividade e da equidade. Isso seria posto em prática através da reformulação dos sistemas tributário, monetário e comercial. Por sua vez, a política fiscal — nas mãos certas — deveria ser resguardada por imprescindíveis mecanismos de controle e avaliação dos custos e benefícios dos investimentos públicos. O Estado, cuja inspiração é ordoliberal, seria o último guardião da restrição de recursos da sociedade.

É assim que chegamos ao quinto e último ponto, as consequências políticas da teoria macroeconômica (supostamente) obsoleta. O desarranjo econômico, quando prolongado, desemboca no populismo que alcança o poder pelo voto. Num círculo vicioso, o ressentimento se prolifera, as instituições são desmanteladas e o autoritarismo toma forma. Sinistro, não é?

Toda essa controvérsia não é novidade, afinal, o André já causou repercussão quando levantou . Todavia, trata-se da mesma pessoa que estava na equipe do Plano Real. Tudo bem, a hipótese da dominância fiscal para o caso brasileiro talvez sem a mesma paciência com o colega Edmar Bacha. Menos ainda com o “pai adotivo” do mais bem-sucedido plano monetário da história nacional, Gustavo Franco. Enfim, permitam-me retomar o assunto em questão.

Aliás, heterodoxos: argumento de autoridade não vale, tá? “O André Lara Resende falou!” E daí? Ele também disse que é a favor da reforma da Previdência e que defende a privatização de todas as empresas estatais. Não conta pra ninguém, tudo bem? Aos ortodoxos, há quem diga que de nada vale estar certo (?) na teoria e praticar os melhores métodos se, ainda assim, a batalha pelos corações e mentes da sociedade brasileira é perdida. Sábio mesmo era Milton Friedman. Parafraseando-o, “We are all MMTers now”.

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

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