Iwazaru, Kikazaru e Mizaru. Os três macacos sábios.

Texto publicado com modificações em: Terraço Econômico

O economista precisa ser comunicador. Escolhemos aqui a segunda definição do dicionário Michaelis para a palavra: “Profissional que cria e/ou transmite mensagens.”

A ciência econômica, assim como as demais disciplinas, se propõe a compreender a realidade. Ouvi um professor dizer que “se fossemos capazes de enxergar a realidade tal como ela é não haveria a necessidade de fazermos ciência”. Em termos kantianos, é preciso investigar “o que é” e não “o que deveria ser”, tendo em mente os limites da própria razão humana. O economista é um dos atores, talvez entre os mais importantes, responsáveis por contar “o que é”.

André Perfeito diria que a atuação de um economista assemelha-se a de um bruxo, conselheiro das cortes e responsável por moldar percepções. Ao contrário dos bruxos de outrora, é mais provável encontrá-los em um estúdio de uma grande emissora de televisão e não no interior de um castelo medieval.

No texto The economist as an expert: a prince, a servant or a citizen?, Alessandro Roncaglia explora o papel do economista enquanto especialista. Um dos casos apresentados por ele é o da Itália depois da crise de 2008. Em 2011, Mario Monti foi alçado ao cargo de primeiro-ministro com rótulo de salvador da pátria. Nomeado para o cargo de senador vitalício e, posteriormente, primeiro-ministro sem passar pelo crivo das eleições, Monti assumia o papel de príncipe do cavalo branco, economista técnico, de alto nível. Na época, a queda do spread entre os títulos do tesouro italiano e títulos alemães foi apontada como mérito do novo primeiro-ministro, uma tragédia grega foi evitada. Por outro lado, economistas keynesianos argumentaram que as políticas econômicas de Monti prejudicaram o consumo e seriam as causas de uma nova crise. A queda do spread? Trata-se de uma antecipação dos mercados, já aconteceria antes mesmo de sua confirmação oficial para o cargo. Observamos no caso italiano uma disputa entre narrativas divergentes.

Robert J. Shiller, laureado com o Nobel de Economia em 2013, oferece uma interessante reflexão sobre as narrativas:

“Alguns têm sugerido que as histórias são o que mais nos distinguem dos animais, e até mesmo que nossa espécie seja chamada Homo narrans ou Homo narrator ou Homo narrativus dependendo de qual latim nós usemos. Seria essa uma descrição mais precisa do que Homo sapiens, homem sábio? Ou podemos dizer ‘narrativa é inteligência’, com todas suas limitações? É mais prestigioso pensarmos em nós enquanto Homo sapiens, mas não necessariamente mais preciso.” (tradução nossa)

A curva de Laffer. Via ProMarket.

Wanniski sugeriu que os EUA encontravam-se no lado direito da curva e que o corte de impostos traria novo fôlego à economia americana. O curioso é que tal afirmação não tinha base estatística alguma, pelo contrário, economistas proclamavam que se tratava de uma falácia. O conceito atingiu seu auge de popularidade em 1980, conforme Shiller explica:

“A curva de Laffer deve muito de seu contágio ao fato de que era vista como justificativa para grandes cortes de impostos. O contágio [da curva de Laffer] era ligado às mudanças políticas fundamentais associadas à eleição de Ronald Reagan como presidente dos Estados Unidos, ao seu comprometimento com o corte de impostos.” (tradução nossa)

Frequência de aparições da curva de Laffer por ano. Considerando noticiários e jornais, temos a porcentagem do total de artigos que citam a frase “Laffer Curve” em cada ano. Considerando livros, temos a porcentagem de ocorrências da “Laffer Curve” registradas no banco de dados de cada ano. Via ProMarket.

Paul Romer, economista-chefe do Banco Mundial, afirmou em um dos memorandos da instituição que “pessoas progridem através da descoberta e compartilhamento de ideias úteis. O valor de uma ideia é proporcional ao número de pessoas que a usam.” Enquanto a segunda parte de sua fala me parece óbvia, o que não diminui seu brilhantismo, prefiro me atentar à primeira parte. Considerando as narrativas econômicas, levanto o seguinte questionamento: Cui bono?¹ Útil para quem?

O conhecimento de determinada área não se torna estável apenas através de fatos e evidências, mas também por meio da dispersão de ideias e da criação de comunidades em seu entorno. Um dos pontos questionáveis do próprio Banco Mundial é justamente esse, cerca de 87% de seus relatórios produzidos nunca foram citados. Mais de 31% nunca foram ao menos baixados. O caso remete à história do astrônomo e matemático grego, Aristarco de Samos. O nome lhe é familiar? Presumo que não. Ele é apontado como um dos pioneiros da hipótese heliocêntrica, uma das hipóteses mais importantes de todos os tempos e que viria a ser desenvolvida por Copérnico mais de 1500 anos depois. Na época de Aristarco, o sistema geocêntrico era a narrativa dominante. Um de seus principais defensores? Aristóteles. A dominância ou não de determinada narrativa pode influenciar diretamente nas compreensões vigentes da realidade. O “progresso das pessoas” pode ser comprometido por narrativas pautadas em “mentiras bem contadas” (Se non è vero, è ben trovato)² ou, para utilizar um clichê pós-moderno, fatos alternativos.

O economista em formação precisa refletir sobre o próprio papel na disputa entre narrativas, precisa refutar a própria ingenuidade. O economista (já não tão ingênuo) se depara com uma quebra de paradigma, mas isso é uma discussão para outra oportunidade.

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store