Texto publicado em: Terraço Econômico

Trata-se de uma pergunta clássica, feita por qualquer professor de introdução à teoria econômica logo nas primeiras aulas. O que é economia? As respostas, em geral, definem a economia (ou ciência econômica, se preferir) como o estudo do dinheiro. Oh, boy! Oh, boy. Valor, escassez, alocação de recursos… É um pouco mais complicado que isso. Para responder essa questão, vamos à enciclopédia. Melhor, vamos à Stanford Encyclopedia of Philosophy, seção de filosofia da economia!

Qual a origem da economia?

O passado da ciência econômica

A economia na era moderna

Para que esse objeto de estudo exista, é preciso que a produção e a troca apresentem regularidades identificáveis. Para que seja não-trivial, é preciso que tais regularidades estejam além do óbvio para os produtores, consumidores e demais envolvidos na troca. Somente no século XVIII — através dos trabalhos de Cantillon, dos fisiocratas, de David Hume e, notadamente, de Adam Smith — é difundida a seguinte ideia: existem leis que governam esse complexo conjunto de interações, responsáveis tanto pela produção e distribuição de bens de consumo, quanto pelos recursos e ferramentas que, por sua vez, os produzem. Em suma, a existência dessas regularidades é o que possibilita a investigação científica da economia.

Dessa forma, é imprescindível o discernimento das consequências não intencionais e resultantes de ações (intencionais) dos indivíduos. Um exemplo disso é a relação traçada por David Hume quanto ao aumento dos preços e o aumento temporário da atividade econômica, dado um aumento na quantidade de moeda. O ouro [moeda] adicional (advindo de nações estrangeiras) é despendido pelos indivíduos [atividade econômica], fazendo com que o nível de preços aumente de forma não deliberada. Ao realizar Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, Adam Smith elabora sobre a observação de Hume:

“[…] procura apenas seu próprio ganho, e nisto, como em muitos outros casos, é só levado por uma mão invisível a promover um fim que não era parte de sua intenção. E tampouco é sempre pior para a sociedade que não tivesse este fim. Seguindo seu próprio interesse, ele frequentemente promove o da sociedade mais efetivamente do que quando realmente pretende promovê-la.”

O que um economista estuda?

I. Através da especificação de um determinado conjunto de fatores causais;

II. Através da especificação de um escopo de fenômenos;

Portanto, o economista estuda os fenômenos de produção, consumo, distribuição e troca, principalmente quando tais fenômenos acontecem através de mercados. No entanto, esses fenômenos envolvem diversos fatores causais (relações de causalidade importam!), por exemplo: a termodinâmica, a metalurgia, a geografia, as normas sociais ou até mesmo a biologia. Mesmo assim, tratar de causalidade (o “porquê” das coisas, digamos assim) não é o suficiente para diferenciar a economia dos demais campos do conhecimento. Para realmente diferenciá-la, alguns referenciais precisam ser adotados.

Os alicerces da teoria econômica

Mill tomava como pressuposto que para perseguir a riqueza e evitar o esforço (físico, mental etc), o indivíduo age racionalmente. Em última instância, isso significa que o comportamento dos indivíduos é, em algum grau, sistemático, o que possibilita a sua investigação científica. Apesar desse referencial, a racionalidade que governaria o comportamento humano, Mill não apresenta uma teoria que explica o comportamento de consumo ou escolha, pouco avançando o conhecimento sobre esses tópicos.

Essas lacunas foram gradualmente sendo preenchidas. Foi durante a dita revolução marginalista ou neoclássica, que foram traçadas relações teóricas entre a escolha de um objeto de consumo (e seu preço) e a utilidade (marginal) desse mesmo objeto. O exemplo da água é uma boa ilustração dessa compreensão:

Embora a água (objeto de consumo) seja útil, sua disponibilidade é abundante a ponto do consumo adicional de um copo d’água fazer pouca ou nenhuma diferença para determinado agente (pessoa). Logo, a água é “barata” (preços baixos) por esse motivo.

Construindo sobre esse arcabouço, os precursores da economia “neoclássica” [tal como William Stanley Jevons] postulavam: os agentes escolhem o que consumir visando a maximização da própria felicidade. A implicação disso para uma pessoa seria distribuir gastos a ponto da unidade monetária (grosso modo, cada R$ 1) de um bem A, B ou C gerar o mesmo “ganho” felicidade, ou seja, a utilidade proveniente desse gasto seria equivalente para qualquer um dos bens em questão.

A economia contemporânea

I. As ordenações [ preferências] são completas. Ou seja, para quaisquer alternativas X e Y consideradas pelo agente, ele prefere X em comparação a Y ou Y em comparação a X, ou ainda, é indiferente (rejeita ambas as alternativas).

II. As preferências são transitivas. Isso é, ao afirmar que um agente prefere X em comparação a Y e Y em comparação a Z, implica preferência de X em comparação a Z.

Afirmações similares podem ser aplicadas quando se trata de indiferença ou combinação de indiferença e preferência. Embora a ciência econômica tenha avançado tecnicamente, sendo capaz de contemplar infinitos conjuntos de alternativas e diversas condições plausíveis de racionalidade, os economistas geralmente aceitam a visão dos agentes racionais. Esses agentes exercem (ao menos) preferências completas, transitivas e escolhem, dentre alternativas factíveis, aquilo que os mais favorecem. Através da teoria da preferência revelada, os economistas tentaram, sem sucesso, eliminar toda referência à preferência subjetiva ou defini-la exclusivamente em termos de escolhas. Algum grau de subjetividade ainda pertence à teoria econômica.

Dado o pressuposto da racionalidade que caracteriza os agentes econômicos, os economistas continuaram distinguindo a economia dos demais tipos de investigação social justamente em razão dos motivos ou preferências pelos quais a área se preocupa. Mesmo que as pessoas busquem a felicidade através do ascetismo (autocontrole) ou prefiram, racionalmente, sacrificar todos bens mundanos por uma causa política, tais preferências são consideradas raras e não importantes. Em suma, eles estão preocupados com fenômenos derivados da racionalidade associada ao desejo pela riqueza e por conjuntos de bens e serviços.

Por outro lado, alguns economistas flertaram com caracterizações menos substantivas da motivação individual e com uma visão mais ampla do escopo da disciplina. Lionel Robbins, por exemplo, definiu a economia como a ciência que estuda o comportamento humano enquanto relação entre fins e meios escassos e diante de alternativas de escolha. Isso significa que a economia não mais estaria preocupada com a produção, troca, distribuição ou consumo. Nessa perspectiva, a economia trata de um determinado aspecto de toda ação humana. Isso permite para a compreensão dos esforços em prol da aplicação de conceitos, modelos e técnicas nos mais diversos assuntos como, por exemplo, o comportamento do eleitor e a elaboração de leis, sem perder a conexão ao seu domínio original.

Na próxima vez que você ouvir a pergunta “o que é economia?”, lembre-se deste artigo. That’s because you’re in for a tough ride, baby. Remember, there’s no free lunch!

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

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