Falácias Lógicas, Fake News e Teorias da Conspiração

Texto publicado em: Blog Cético

O atual filme da corrida eleitoral brasileira pode ser classificado como terror ou comédia, dependendo do freguês. Se você costuma escolher aquilo que consome a partir de critérios racionais, científicos ou minimamente céticos, tenho más notícias. Suas escolhas reais serão escassas. Jair Bolsonaro simulou o próprio atentado para disfarçar um suposto câncer? Falso. Fernando Haddad criou o ‘kit gay’? Falso. Ursal? Falso. Ciro Gomes ajudou a fazer o Plano Real? Falso. João Amoêdo trabalha para George Soros? Falso. Qual a lógica por trás desse tipo de coisa?

Ao explorarmos uma das lógicas (ou a falta de lógica) que podem explicar esse tipo de fenômeno, é necessário apresentar uma importante ideia: o viés da complexidade.

Porém, antes disso, é útil pontuar três ideias subjacentes:

I. simples: aquilo que é “fácil”, “claro” e “que não é composto”

II. complexo: de acordo com o respectivo verbete no dicionário Priberam, pode significar algo “complicado” [difícil de resolver] ou um “conjunto de coisas ligadas por um nexo comum”.

III. caos: significa “confusão” ou “desordem”.

Dito isso, chegamos ao nosso objeto de reflexão, a matéria-prima das notícias falsas e das teorias da conspiração: a distinção entre simples, complexo e caos. O viés da complexidade atua causando uma preferência por aquilo que é mais complexo, em detrimento do que é simples. Isso compromete o juízo acerca da existência ou não de ordem, ou seja, a separação entre complexo e caos.

Expressão lógica do viés da complexidade:

simples < complexo = caos

Uma teoria da conspiração, por exemplo, pode ser descrita como uma falácia lógica onde há imposição de ligações inexistentes sobre um conjunto de coisas. Em outras palavras, é o resultado da desigualdade entre complexo e caos. Portanto, não há ordem e a elaboração de predições é extremamente difícil.

As pesquisas científicas podem proporcionar uma melhor compreensão a respeito desse viés. Por exemplo, num experimento conduzido por Farris e Revlin era pedido aos participantes que identificassem uma regra aritmética com base num dado conjunto de três números (2, 4, 6). As tentativas de resposta ocorriam da seguinte maneira: o participante perguntava ao condutor do experimento se outro conjunto de três números quaisquer seguia a mesma regra que o original. Nota-se, a regra simplesmente consiste em três números cuja ordem é crescente. O experimento é análogo ao método científico, envolvendo a formulação e a avaliação de hipóteses. A maior parte dos participantes não identificou a regra correta na primeira tentativa. Pelo contrário, elaboraram as mais complexas regras para a sequência de números.

Outro experimento, conduzido por Helena Matute, busca analisar a capacidade de as pessoas distinguirem entre complexo e caos. Três grupos foram colocados em três salas diferentes e expostos ao mesmo som, de forma contínua e por um período determinado. Os participantes do grupo 1 foram orientados a sentar e ouvi-lo. No grupo 2, foram informados que uma ação específica por parte dos integrantes o interromperia. Enquanto isso, o grupo 3 recebeu a mesma orientação do grupo 2, porém, nenhuma ação tomada por seus integrantes o interromperia. O resultado foi: nenhum dos integrantes do grupo 3 percebeu que era impossível interrompê-lo. Isso dependia exclusivamente do grupo 2. Embora a percepção de ambos acerca do controle que exerciam era idêntica, o grupo 3 não foi capaz de atualizar essa crença diante do contexto em que estava inserido. Sob essa condição, os integrantes do terceiro grupo passaram a demonstrar “comportamentos supersticiosos”. Essa incapacidade denota estupidez? Não.

Fazer tal distinção é difícil porque, conforme postulam Kahnemann e Tversky: o funcionamento de um sistema complexo é comprometido quando uma de suas partes essenciais apresenta problemas. Logo, mesmo que a chance de cada parte apresentá-los seja pequena, um colapso total possui altas chances de acontecer se muitas dessas partes estiverem envolvidas. Portanto, a manutenção de um sistema complexo é altamente custosa para o próprio sistema e isso se associa aos custos do entendimento do caos pela mente humana para agravar ainda mais o viés da complexidade. Mas, é possível superá-lo?

Uma das ferramentas que podemos utilizar para superar esse viés é a navalha de Occam, também conhecida como princípio da parcimônia. Dada uma situação, esse princípio sugere que a explicação mais simples geralmente é a correta. Quando as evidências empíricas necessárias para que uma hipótese seja falseada não estão disponíveis, é recomendável que aquela acompanhada pelo menor número possível de pressupostos e digressões seja a preferida. Ao aplicar o princípio no experimento de Matute, por exemplo, os seguintes pressupostos precisariam ser sustentados no caso dos grupos 2 e 3:

Considerando ambos os grupos, é plausível que os dois primeiros pressupostos se sustentem. Contudo, considerando o grupo 3, é extremamente difícil afirmar que os dois últimos pressupostos se sustentam com certeza. O mesmo raciocínio pode ser transposto para os exemplos de teorias da conspiração citados acima, especificamente, às teorias ligadas aos candidatos à presidência, Jair Bolsonaro e João Amoêdo.

Expressão lógica do princípio da parcimônia:

simples > complexo != caos

No caso do candidato Bolsonaro, temos as seguintes hipóteses concorrentes:

No entanto, a sustentação da segunda hipótese envolve um número considerável de pressupostos e exige inúmeras digressões, por exemplo:

A aplicação do princípio da parcimônia sugere que a primeira hipótese muito provavelmente é a correta. Afinal, ela seria a mais simples e objetiva dentre as duas explicações. Deste modo, o tipo de narrativa identificado na segunda hipótese acaba sendo inviável. Também é possível desenvolver o raciocínio contrário, assumir que a conspiração é verdadeira. No entanto, conforme o artigo de David Robert Grimes — On the Viability of Conspiratorial Beliefs — quando se considera o número de pessoas envolvidas numa grande teoria da conspiração ao longo do tempo, seu fracasso é probabilisticamente iminente. No modelo matemático proposto por ele, bastam algumas centenas de pessoas para que o “segredo” venha à público.

Em suma, quando buscamos o esclarecimento diante de notícias falsas ou até mesmo teorias da conspiração, o uso da intuição aliada à parcimônia ou da elaboração matemática é bem-vindo e desejável. Afinal, a velha frase de Ernst F. Schumacher, estatístico e economista alemão, se mostra especialmente emblemática e provocadora em relação aos tempos atuais:

“Qualquer tolo inteligente pode fazer coisas maiores, mais complexas e mais violentas. É preciso um toque de gênio — e muita coragem — para se mover em direção contrária.”

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store