Blockchain e SWIFT: Uma breve introdução

Artigo referente à aula aberta intitulada “Finanças e Tecnologia — Blockchain e SWIFT”. Parte do curso Inglês para Negócios: Bancos e Finanças, oferecido pela Share — Centro de Línguas, essa aula foi ministrada no dia 5 de dezembro de 2018 no campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos.

Blockchain

O termo blockchain é uma das inúmeras buzzwords que encontramos no mundo das finanças e da tecnologia. No entanto, considerando sua popularidade, trata-se de um patinho feio quando comparado ao bitcoin, que é infinitamente mais popular. Curiosamente, minha proposta é oferecer noções introdutórias a respeito desse patinho feio. Bem, vamos lá!

A blockchain é um novo tipo de banco de dados (BD). Mas o que a blockchain oferece de novo em relação aos tipos antigos? Simplificando, quando você precisa atualizar uma entrada numa blockchain, essa atualização é feita e adicionada ao seu “fim”. Tal qual uma corrente, você não altera os elos antigos se precisar aumentá-la, apenas adiciona um novo elo na ponta.

Beleza. Qual melhoria essa inovação traz? Confiança. Nos BDs antigos qualquer entrada pode ser alterada, é só digitar alguma coisa e clicar no “Salvar”. Parece besteira? Imagine se alguém invade o sistema do seu banco e altera o saldo da sua conta corrente para zero. Se você é um estudante, não vai mudar muita coisa, não é? Brincadeira. A ideia é: se um determinado sistema permite que um histórico seja alterado com o apertar de uma tecla, você não tem escolha senão confiar nas pessoas que cuidam dele para que fraudes não aconteçam. Ou seja, vai precisar confiar no ser humano. Afinal, o ser humano é bem confiável, vide o resultado das últimas eleições. Uma blockchain é uma tentativa de criar históricos imunes às manipulações.

Entendi. Históricos do que? Históricos de transações. Sejam elas monetárias (alô, Bitcoin), contratos ou até mesmo o seu histórico particular mantido pelo seu médico. Basicamente, trata-se de uma forma de proteção contra alterações indesejadas. Resumo da ópera: uma blockchain é um histórico de transações.

Em teoria, suas aplicações são inúmeras. Entretanto, estamos lidando com um único tema: contabilidade verificável. Podemos descrevê-lo em três etapas:

  1. Temos um BD, em outras palavras, um conjunto de dados. Qualquer tipo de dado: valores monetários, arquivos .PDF ou links para fazer um download.
  2. Esses conjuntos são “carimbados” de um jeito bem peculiar, pense em um documento assinado com firma reconhecida em cartório.
  3. Os conjuntos já “carimbados” são distribuídos entre membros de uma rede, cada um deles possui a própria cópia dos registros, podendo verificá-la e atualizá-la.

Nessa terceira etapa o número de cópias distribuídas garante que ninguém possa se apropriar dos conjuntos, afinal, estão distribuídos de forma descentralizada. Uma eventual nova versão inicial depende da aprovação de 51% dos membros da rede.

Beleza. Novo tipo de banco de dados. Cópias distribuídas. Como funciona?

Exemplo didático: digamos que seu professor tenha uma blockchain distribuída entre todos os professores do departamento para armazenar provas de cálculo. Lembre-se, novas alterações vão para o “fim da fila”, não é possível retroceder e excluir uma entrada antiga facilmente, por exemplo. Cada nova prova é um elo adicionado à corrente. Se ele precisar corrigir uma delas, a versão corrigida também se torna um elo no fim da corrente. Se você quiser fazer uso de algum meio para alterar ou excluir uma dessas provas, precisará entrar em consenso com os demais membros da rede e, ao fazê-lo, todos os elos subsequentes serão destruídos. Ademais, os complexos procedimentos matemáticos envolvidos no processo seriam um obstáculo ainda maior.

Em termos técnicos, uma blockchain funciona pegando os dados de um novo bloco (o próximo elo da corrente), “carimbando-o” com a representação matemática de seu bloco imediatamente anterior e uma timestamp (registro do seu momento de criação no tempo). Beleza. Representação matemática do bloco anterior e timestamp. Afterwards, hash it all together! Hash?

Primeiro, temos a função hash criptográfica seria uma espécie de “caixa mágica” que transforma aquilo que você coloca dentro dela. Relembrando o exemplo didático acima, uma prova de cálculo inserida na função tem como resultado um determinado código identificador (o chamado hash). Se você substituir uma vírgula da prova por um ponto e inseri-la na função, um número identificador completamente diferente será obtido. Portanto, o hash é a representação matemática dessa prova (bloco). Note que ela inclui o código identificador (hash) da prova imediatamente anterior. Logo, cada bloco é, ordenado cronologicamente, passível de verificação, dependente e ligado ao seu antecessor até o primeiro deles. Daí o nome blockchain.

Sabemos que uma blockchain é um tipo diferente de banco de dados, um histórico de transações. Seu funcionamento é descentralizado e acontece através de autenticações matemáticas complicadas. Qual a relação disso com finanças?

Lembre-se dos exemplos dados acima e da melhoria proporcionada por uma blockchain: confiança, um agente intermediário torna-se desnecessário. Você confere o cuidado do dinheiro da sua conta ao banco e até paga por isso. No mundo hipotético onde transferências monetárias são feitas através de uma tecnologia blockchain o custo é outro. A MasterCard ou a Visa pode processar dezenas de milhares de transações por segundo, no caso do Bitcoin apenas sete transações podem ser feitas durante o mesmo segundo. Ainda assim, no mundo tradicional você pode enfrentar outros problemas, a moeda pode perder seu valor (inflação brasileira no governo Sarney) ou o dinheiro do povo pode ser literalmente “tomado” (confisco do governo Collor). Não se trata de melhor ou pior, apenas trade-offs. Essa é uma discussão muito mais profunda, you can’t even wonder how deep the rabbit’s hole goes. Porém, nosso foco é a tecnologia blockchain e o caráter deste artigo é introdutório.

A grande contribuição do bitcoin foi a tecnologia, verdadeiramente revolucionária, por trás dele: o blockchain. Com o blockchain, cuja denominação genérica hoje é DLT, é possível transferir a propriedade de ativos — assim como de qualquer documento — de forma descentralizada. As implicações disso poderão ser tão revolucionárias quanto foi a internet, que permitiu a divulgação descentralizada da informação. Um sistema de pagamentos baseado em DLT dispensará tanto a custódia quanto a liquidação centralizada e revolucionará o funcionamento do sistema de pagamentos.

— André Lara Resende, economista, PhD pelo MIT e um dos criadores do Plano Real

SWIFT

Bom, vimos que uma das principais características da tecnologia blockchain é a confiança conferida pela descentralização. O intermediário se torna obsoleto. Seja um banco, um cartório ou um órgão público responsável por guardar o projeto de uma ponte, por exemplo. Brincadeira, by the way. Talvez. Um exemplo desses “intermediários” no âmbito das finanças internacionais é a SWIFT.

No ano de 1973 um empreendimento cooperativo envolveu 239 bancos de 15 países para lidar com um problema específico: como comunicar pagamentos internacionais. Isso é, qual seria a melhor forma de rastrear as movimentações do dinheiro além das fronteiras nacionais? A solução desse problema se deu na SWIFT. Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication. Beleza, uma sociedade internacional de bancos. Soa conspiratório, quase. Na verdade, não. O intuito da SWIFT é compartilhar serviços. Grosso modo, esses serviços originalmente incluíam três componentes:

  1. Uma plataforma de troca de mensagens;
  2. Um sistema de validação e encaminhamento dessas mensagens;
  3. Um conjunto de padrões de comunicação que permita o entendimento comum e a automatização da transmissão, por exemplo.

Simplificando. É um sistema de troca de mensagens entre bancos. Inclusive, elas são escritas em uma linguagem própria chamada FIN. Tudo bem. Como funciona?

De novo, simplificando. Através de um sistema de códigos, onde cada parte desse código é referente a uma informação, por exemplo, a origem de uma transferência financeira e o seu destino. Cada organização financeira possui o seu código de identificação assim como o seguinte: UNCRITMM. Decompondo-o:

Logo, se você desejar fazer uma transferência financeira internacional essa é uma das informações necessárias. Note que aquilo que está sendo transacionado não é o dinheiro propriamente dito, são mensagens. Cada instituição possui uma interface com o sistema (pense em um computador), através dela uma mensagem é enviada, processada regionalmente (no país do emissor) e encaminhada para o país do destinatário. Lá o processo continua de forma análoga. O recebimento é confirmado e as autoridades das respectivas organizações auditam todo o processo para verificarem possíveis fraudes. Entretanto, algumas complicações podem existir. Se o banco-emissor não possui uma filial no país do banco-destinatário, seria necessária uma terceira instituição com relação mútua, ou seja, um terceiro banco onde emissor e destinatário possuem conta, por exemplo. Obviamente, a utilização dos serviços da SWIFT não é gratuita. A maior parte da receita é proveniente da parcela retida pela sociedade no envio de cada mensagem.

How SWIFT Works, diagrama de John Hemminger.

Provocações Finais

Ao invés de chamar a atenção para as possíveis transformações avassaladoras que podem acontecer futuro, faço uma provocação contraintuitiva.

Aristóteles já dizia, o dinheiro é apenas um pedaço de papel, um número na tela do computador (sabemos que ele não disse isso, porém, disse algo parecido). No entanto, você confia que alguém irá aceitá-lo em troca de um brigadeiro. A pessoa que recebê-lo confia que poderá adquirir outro bem com o mesmo dinheiro. Você confia nas informações registradas na sua certidão de nascimento. Dorme tranquilo depois de pagar seu aluguel, sem preocupações quanto ao pagamento ser de fato efetuado pelo banco. A blockchain e a SWIFT, fundamentalmente, lidam com questões humanas. Formas de registrar informações, preservá-las com confiança e comunicá-las. Quando consideramos essas tarefas, seus custos, seu funcionamento e as escolhas a serem feitas, as coisas ficam um pouco mais complicadas. Contudo, refletir sobre as questões humanas é uma lição de humildade. Comunicação e confiança. What’s staying the same?

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

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