As raízes filosóficas da ciência econômica

Texto publicado em: Terraço Econômico

A ciência econômica está passando por mudanças, conjecturas teóricas estão sendo menos enfatizadas, dados e evidências ganham uma maior importância. No entanto, as raízes da disciplina encontram-se na filosofia, afinal, Adam Smith — o pioneiro da denominada economia política — ocupava a cadeira de filosofia moral na Universidade de Glascow. Porém, essas raízes vão muito além da Escócia do século XVIII.

Aristóteles, o primeiro analista econômico

Aristóteles. 384 a. C. — 322 a.C.

Aristóteles, filósofo grego anterior ao século III a.C., é considerado o primeiro analista econômico. Embora a economia tenha sido abordada por ele como matéria subordinada à ética, suas discussões envolviam temas historicamente tradicionais.

Tendo como objeto a riqueza [definida como: dinheiro, terras, propriedades móveis ou imóveis, gado, escravos, etc], o filósofo transitava por dois níveis distintos: macro e micro. No primeiro, lida-se com os assuntos da cidade-estado. No segundo, [lida-se] com os assuntos do espaço doméstico, sendo o primeiro composto por inúmeras instâncias do segundo. A riqueza era investigada nos aspectos produtivo (agricultura, pesca e caça, p. ex.), pautando-se nas atividades ligadas à satisfação de necessidades essenciais, e acumulativo, onde a riqueza é um fim em si própria. O grego postulava pelo eventual benefício da acumulação de riqueza, pois, essa possibilitava a comercialização daquilo que está além da autossuficiência (excedente). No entanto, afirmava que uma das preocupações da cidade-estado é a distribuição justa dessas riquezas [no nível micro], visando o progresso [no nível macro]. Sendo assim, certa regulação sobre a renda era vista como prudente, porque Aristóteles considerava que a indiferença à verdade e justiça pelos poderosos implicava em sacrifícios ao progresso, logo, a manutenção do equilíbrio social seria uma das incumbências da cidade-estado. A lógica econômica seria: atingir a autossuficiência em um primeiro momento para, posteriormente, acumular e administrar a riqueza.

No espaço domiciliar, a natureza das operações econômicas manifestava-se de forma distinta entre determinados agentes. O homem, livre, intelectual e trabalhador, era responsável pela administração da propriedade e da produção agrícola. A mulher, socialmente subordinada ao primeiro, cumpria a função de reprodutora. O escravo seria responsável pela produção de bens materiais e serviços, operação também desempenhada por cidadãos livres, embora o trabalho assalariado fosse considerado menos valoroso e essa categoria social, pouco aceitável. Os bens produzidos poderiam ser caracterizados como criativos (meios de produção) ou práticos (meios de consumo). O trabalho necessário para a atividade seria organizado segundo as funções de direção (cérebro) e execução (corpo), em grau de importância, a primeira seria hierarquicamente superior à segunda. Em suma, a sociedade, posta de forma estática por Aristóteles, dividia-se em duas classes: livres e escravos.

Em suas conjecturas monetárias, o filósofo grego investigou e propôs duas propriedades da moeda, meio de troca e unidade de conta, rejeitando a propriedade de reserva de valor. A moeda não possuiria valor intrínseco (fiduciária), sendo esse proveniente exclusivamente da lei (nomisma). Seria responsabilidade da cidade-estado zelar pelas flutuações de demanda por moeda, causa possível de turbulências sociais por sua inelasticidade.

Ibne Caldune, o primeiro cientista social

Ibne Caldune. 1322–1406.

Ibne Caldune, polímata mouro do século XIV, é considerado um dos primeiros cientistas sociais. Ao criticar o processo de transmissão da história por ser fundamentado na autoridade da figura que a reproduz, advogou por um novo rigor metodológico: investigar a organização social humana com o objetivo de abstrair parâmetros analíticos. Logo, esses parâmetros seriam utilizados para avaliar a veracidade de informações relevantes. Assim como o próprio Aristóteles, Caldune identificava a importância da divisão do trabalho enquanto alicerce de uma sociedade civilizada. Essa divisão tinha papel essencial na obtenção de excedentes de valor, contribuindo para o bem-estar coletivo por meio da cooperação, assim como possibilitando que relações de mercado fossem estabelecidas (relações de oferta e demanda).

As análises econômicas do mouro se ramificavam, observando tradicionais temas (e fatores) como a produção (e os salários), o comércio (e o lucro), sujeito às interferências maléficas por parte dos governantes, e o setor público (assim como a tributação). No último, inclusive, o precursor de Adam Smith postulou ideias próximas à contemporânea curva de Laffer. O início de uma dinastia seria marcado pelos altos rendimentos tributários, dado um reduzido contingente pagador. O fim de uma dinastia, entretanto, seria caracterizado por rendimentos decrescentes ainda que o contingente pagador fosse numeroso, sendo necessária uma boa gerência do governante para que o desperdício ou a repressão de recursos sejam evitados.

A ciência econômica está passando por mudanças. Alguns compreendem que o estado da arte da teoria incorpora as contribuições relevantes do passado, outros defendem que a história do pensamento é uma importante ferramenta nos dias atuais. Certa vez, um diretor do FMI disse que o mundo está cheio de economistas dispostos a acreditar somente naquilo que podem provar. Segundo ele, isso seria um luxo, pois, muitas decisões são tomadas com base não só naquilo que sabemos, mas também naquilo que não sabemos. Tendências apontam para um avanço em relação ao que podemos provar, porém, refletir sobre temas inerentes às raízes da ciência econômica, assim como fizeram Aristóteles e Ibne Caldune, pode ser útil para o aprimoramento de uma das mais importantes habilidades do economista: o juízo.

Aquele que não sabe, e pensa que sabe. Ele é tolo. Evite-o.
Aquele que sabe e não sabe o que sabe. Ele está adormecido. Desperte-o.
Aquele que sabe e não admite o que sabe. Ele é humilde. Guie-o.
Aquele que sabe e sabe o que sabe. Ele é sábio. Siga-o.

— Ibn Yamin, poeta persa. Séc. XIV.

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