Anotações sobre a irracionalidade humana

Think about it.

Um viés cognitivo é um erro sistemático (não-aleatório) no processo cognitivo, ou seja, um juízo desviado daquilo que é considerado desejável na perspectiva das normas aceitas ou consideradas corretas, em termos de lógica formal.

I. Viés da confirmação

É a tendência de se buscar, interpretar e recordar informações de modo a confirmar hipóteses ou crenças pré-estabelecidas.

Viés da confirmação

Seu efeito é potencializado ao se abordar assuntos emocionalmente carregados ou crenças profundamente enraizadas.

Pode ser utilizado para compreender a polarização entre grupos (um desentendimento se agrava mesmo que diferentes lados da discussão sejam expostos à mesma evidência), a perseverança de crenças (uma crença persiste mesmo após as evidências que a fundamentam sejam mostradas notadamente falsas), o efeito primazia (maior confiança nas primeiras informações encontradas) ou a correlação ilusória (pessoas erroneamente percebem uma associação entre dois eventos ou situações).

Viés da confirmação

Explicações para sua ocorrência incluem os limites humanos para o processamento de informações e avaliações sobre os custos do erro.

Viés da confirmação

Contribui para a superestimação de crenças pessoais e a manutenção ou o fortalecimento de crenças frente a evidências contrárias.

Foi documentado em contextos políticos e organizacionais.

II. Heurística da disponibilidade

É a tendência de se atribuir maior importância àquilo que é recordado com maior facilidade.

III. Viés da informação

É a tendência de buscar informações mesmo que essas não afetem decisões.

Viés da informação

Pode ser utilizado para compreender a relutância em se iniciar a prática de atividades físicas ou alterar hábitos alimentares até que determinado nível de conhecimento seja alcançado, mesmo que a partir de certo ponto informações adicionais sejam irrelevantes para a decisão em questão.

IV. Viés do retrospecto

É a tendência a compreender um evento como previsível após seu acontecimento, mesmo que houvesse pouco ou nenhum fundamento prévio para possibilitar essas predições.

Viés do retrospecto

Pode ser utilizado para compreender distorções em conclusões derivadas de acontecimentos reconstruídos (p. ex. resultados de batalhas descritas por historiadores, diagnósticos errôneos por médicos ou julgamentos do sistema judiciário).

Contribui para distorções de audição e memória, além de esquecimentos motivados — onde a responsabilidade por um desfecho indesejado em determinado evento é rejeitada, seja colocando-o como imprevisível (processamento defensivo) ou inevitável (pessimismo retroativo).

V. Conservadorismo

É a tendência de se revisar uma crença de maneira insuficiente frente a novas evidências.

VI. Viés atencional

É a tendência em se modificar percepções de acordo com pensamentos recorrentes, possivelmente, dificultando a avaliação de possibilidades alternativas.

Exemplo:

Indivíduos ansiosos tendem a priorizar estímulos de ameaça durante os estágios iniciais do processamento de informações, direcionando menos atenção a estágios mais estratégicos do processo.

VII. Maldição do conhecimento

É a tendência em assumir, inconscientemente, que possíveis interlocutores possuem os conhecimentos necessários para se comunicarem com o locutor de forma satisfatória.

Maldição do conhecimento

Definição técnica: Em uma análise de assimetria de informações, um agente melhor informado não necessariamente consegue antecipar o julgamento de agentes menos informados com precisão.

Exemplo:

Professores com dificuldades para ensinar um grupo de alunos com pouco ou nenhum conhecimento prévio, pois, ele encontra problemas para se colocar na posição de um aluno.

VIII. Viés da soma zero

É a tendência a perceber relações sociais de maneira antagonística. Dada a suposta inserção em um contexto de escassez, o ganho de uns levaria à perda de outros.

Viés da soma zero

Exemplos:

“O país y se tornou rico através da exploração do país x.”

“Mais recursos para o grupo y (p. ex. imigrantes) implicam em menos recursos para o grupo x (p. ex. não-imigrantes).”

“O sucesso econômico somente é alcançável mediante o fracasso de outras pessoas.”

Explicações para sua ocorrência incluem fatores evolutivos (sobrevivência em contextos de escassez), além de crenças e experiências ontogênicas.

Contribui para demonstração de comportamentos competitivos (menos cooperativos) e para determinados preconceitos sociais.

IX. Viés da atribuição de hostilidade

É a tendência em interpretar comportamentos de terceiros como intencionalmente hostis, mesmo que eles sejam benignos ou ambíguos.

Viés da atribuição de hostilidade

Exemplo:

Uma pessoa vê duas outras rindo e imediatamente interpreta que o objeto do riso é ela, mesmo que o comportamento observado seja ambíguo e possivelmente benigno.

Pode ser utilizado para compreender comportamentos reativo-agressivos (p. ex. agressões físicas, reações violentas, agressões verbais ou relacionais) no contexto escolar e doméstico.

X. Viés da negatividade

É a tendência a ser mais afetado por eventos negativos em relação a eventos neutros ou positivos de mesma intensidade.

Viés da negatividade

Pode ser utilizado para compreender a formação de relações sociais, a rejeição a candidatos em uma eleição e a atribuição de más intenções diante de eventos negativos.

Exemplo:

Em um contexto de apostas, uma pessoa tende a crer que seu parceiro teve maior influência sobre desfechos de perda em relação a desfechos de ganho, mesmo que a probabilidade de acontecimento seja a mesma para ambos.

XI. Lacuna de empatia

É a tendência a subestimar influências instintivas sobre atitudes, comportamentos e preferências.

Lacuna de empatia

Pode ser utilizado para compreender a dependência entre fatores viscerais (fome, sede, dor, desejo sexual, etc) e a compreensão humana (p. ex. quando se está bravo, é difícil entender como é estar calmo ou quando se está apaixonado, é difícil entender como é não estar apaixonado).

XII. Negligência da duração

É a tendência de se julgar experiências desconfortáveis ou dolorosas independentemente de sua duração. Seu efeito aparentemente é restrito a experiências não familiares, tendo dois fatores principais: pico (momento onde a sensação é mais intensa) e dissipação (o quão rápido a sensação diminui).

XIII. Efeito Barnum

É a tendência de se atribuir alta confiabilidade a descrições de personalidade supostamente individuais, quando, na verdade, são vagas e genéricas o suficiente serem aplicáveis a uma ampla gama de pessoas.

Pode ser utilizado para compreender parcialmente a aceitação de crenças e práticas paranormais (p. ex. astrologia, adivinhações e alguns tipos de teste de personalidade).

Efeito Barnum

XIV. Efeito avestruz
É a tendência a ignorar informações potencialmente ruins, evitando o desconforto psicológico decorrente.

Efeito avestruz

Pode ser utilizado para compreender comportamentos como a relutância em verificar a fatura do cartão de crédito, após eventuais gastos considerados exagerados, ou, optar por não conhecer o resultado de uma avaliação escolar quando se julga que seu resultado não foi satisfatório.

O efeito inverso também foi cientificamente investigado. No dito “efeito suricato” há uma tendência em se tornar “hipervigilante” frente à notícias potencialmente positivas ou negativas.

XV. Ponto cego do viés

É a tendência de se reconhecer o impacto de vieses no julgamento de terceiros, enquanto os mesmos impactos sobre os próprios julgamentos não são considerados.

Exemplo:

“Todo mundo está errado, eu estou certo.”

“Todo mundo está enviesado, eu não.”

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

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