Robert K. Merton. 1910–2003.

Texto publicado em: Terraço Econômico

Profecia autorrealizável. Soa familiar? Esse conceito já apareceu neste mesmo Terraço uma dezena de vezes, aplicado aos mais diversos contextos: do banco central às finanças comportamentais, da dívida pública à escalada do dólar, de Keynes à Bolsonaro. Contudo, algumas questões persistem. O que é, qual sua origem e como a profecia autorrealizável se relaciona com o modelo de Black-Scholes?

“Se as pessoas definem certas situações como reais, elas são reais em suas consequências.”

– W.I. Thomas

Essa proposição — conhecida como Teorema de Thomas — se encontra no primeiro parágrafo do artigo The Self-Fulfilling Prophecy, publicado em 1948 e onde o termo profecia autorrealizável foi originalmente cunhado. O autor desse artigo é o sociólogo americano Robert K. Merton, considerado um dos fundadores da sociologia moderna e precursor nos estudos da sociologia da ciência. Segundo ele, se trata de um teorema elementar, tão relevante nas ciências sociais quanto um teorema newtoniano na física. Logo, é um conceito imprescindível para a compreensão de muitos processos sociais, senão a maioria deles. O Teorema de Thomas fundamenta a profecia autorrealizável, cuja descrição dada por Merton é: uma definição inicialmente falsa, que incita determinado comportamento e faz com que a definição original se torne verdadeira. Todavia, é necessário associar ilustrações à abstração.

Imagine um banco comercial bem-sucedido e com níveis razoáveis de liquidez. Certo dia o gerente do banco olha pela janela, vê algumas dúzias de trabalhadores na fila do caixa e diz: “Espero que esses homens não tenham sido demitidos da fábrica. Numa hora dessas deveriam estar trabalhando.” A secretária ouve o comentário e pouco tempo depois as vozes se multiplicam. Considerando a situação original, um mero rumor de insolvência do banco, embora inicialmente falso, levou os ansiosos correntistas a formarem longas filas. Outros correntistas, temendo pelas próprias economias, juntaram-se a eles. Por fim, os implacáveis saques de depósitos resultaram na falência do banco. Basta que uma situação falsa seja entretida pela mente humana. Consequentemente, o comportamento social é condicionado por tal situação, tornando-a verdadeira. Assim é a profecia autorrealizável, porém, não se trata de um fenômeno exclusivo ao mundo financeiro.

A profecia descreve um padrão comumente observado em diversas partes da vida social. O estudante, por exemplo, convencido de um possível resultado ruim numa avaliação, dedica seu tempo às preocupações e não aos estudos. Sendo assim, cria as condições necessárias para o próprio fracasso. Da mesma forma, a crença no confronto inevitável entre duas nações promove a apreensão mútua, movimentos supostamente ofensivos de um lado são respondidos com defensivos no outro. Em última instância, a antecipação do conflito implica sua própria eclosão. A incompreensão das profecias autorrealizáveis, diz Merton, leva bons homens à conclusões equivocadas. Uma parte considerável do artigo discute as relações raciais da época. Por exemplo, os negros eram sistematicamente excluídos do movimento sindical, pois, acreditava-se que furavam greves e aceitavam salários abaixo daqueles negociados coletivamente. O movimento sindical tomava esses comportamentos como fatos. Contudo, os sindicalistas não percebiam que medidas tomadas por eles próprios originavam tais fatos. Ao serem excluídos os negros dos sindicatos e, consequentemente, de inúmeros postos de trabalho, criavam-se incentivos para que furassem greves e aceitassem salários mais baixos. A história pôs essas crenças à prova, uma vez que os negros passaram a ser aceitos nos sindicatos, elas desapareceram. Entretanto, é possível quebrar uma profecia autorrealizável de forma deliberada?

Num primeiro momento, a profecia pode ser superada se a situação que condiciona o comportamento for abandonada. Partindo de um novo pressuposto, alteramos o fluxo subsequente de eventos. Porém, muitas vezes essas situações estão profundamente enraizadas, ou seja, independem da mera vontade. Alguém que sofre alucinações não irá simplesmente superá-las ao ser informado de que são infundadas. Seguindo o mesmo raciocínio, ideias falsas não se extinguirão quando confrontadas com a verdade. Portanto, possíveis soluções não podem ser relegadas à panaceias sociológicas (educação, p. ex.) ou sentimentos morais. O medo só se traduz em realidade na ausência de controles institucionais. O caso do banco, ilustrado anteriormente, pode ser remediado com sucesso satisfatório através da garantia dos depósitos dos clientes por uma instituição governamental, por exemplo. Ainda assim, o planejamento das relações humanas deve ser considerado com a devida cautela, assunto para um próximo artigo. Se você ainda está esperando pelo modelo de Black-Scholes, a relação é a seguinte: o próprio termo, assim como o primeiro artigo que expandiu a compreensão matemática do modelo, são de Robert C. Merton. Exatamente, o pai, Robert K. Merton, cunhou o termo “profecia autorrealizável” e o filho cunhou o termo “modelo de Black-Scholes”.

Interessante, não? Não será dessa vez que vou falar de precificação de opções. Não ainda.

tt: @asjr_p | learned to code @ 15 y.o. | writer @terracoecon | interested in econ & tech

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